O envelhecimento digno é o maior desafio estratégico de Portugal
Opinião de Tiago Marques, CEO da Puro Cuidado
Quando falamos de envelhecimento, tendemos a pensar na idade avançada. Porém, a verdade é que envelhecer não começa aos 80 nem aos 90 anos. Começa muito antes, nas escolhas que fazemos, nas redes de apoio que construímos e, sobretudo, na forma como a sociedade decide cuidar das pessoas.
Hoje, estamos perante uma transformação demográfica sem precedentes. Portugal enfrenta uma decisão coletiva sobre a forma como quer envelhecer. Atualmente, vivem no país mais de 2,6 milhões de pessoas com 65 ou mais anos e existem 189 pessoas idosas por cada 100 jovens. É o índice de envelhecimento mais elevado de sempre e um dos mais altos da Europa. O aumento da esperança de vida é uma conquista civilizacional, mas garantir que esses anos sejam vividos com autonomia, segurança e qualidade de vida é o verdadeiro teste à nossa sociedade.
Apesar desta realidade, continuamos a falar de cuidados demasiado tarde. Na maioria das famílias, o tema surge apenas depois de uma queda, um internamento, um diagnóstico ou quando a sobrecarga dos cuidadores já se tornou insustentável. No entanto, o envelhecimento digno não deve depender de uma urgência.
Planear o cuidado é um ato de responsabilidade. É perguntar “Como quero viver os próximos anos?”, “Quero continuar na minha casa e manter as minhas rotinas?”, “Quero preservar a minha independência durante o máximo de tempo possível?”. A maioria das pessoas, provavelmente, responderá que sim a tudo, o que só é possível quando o apoio é planeado atempadamente.
O primeiro passo é reconhecer que o envelhecimento também se planeia. Importa antecipar as necessidades de apoio, adaptar os contextos de vida e tomar decisões antes de existir uma dependência. Adiar esta conversa tem um custo humano e económico para as famílias, os cuidadores e o próprio sistema de saúde.
Autonomia significa poder continuar a decidir sobre a própria vida, mesmo quando precisamos de ajuda. Consiste em escolher quem nos acompanha, permanecer no ambiente que conhecemos e manter aquilo que nos faz sentir quem somos.
Neste contexto, os cuidados domiciliários afirmam-se como uma infraestrutura social. Ao permitir que mais pessoas permaneçam em casa com apoio profissional, contribuem para reduzir internamentos evitáveis, aliviar a pressão sobre os hospitais e lares e tornar mais sustentável a conciliação entre a vida profissional e as responsabilidades de cuidado por parte das famílias. Em vez de substituírem a família, complementam-na, prolongam a independência do paciente e permitem que milhares de pessoas continuem a envelhecer em casa, com dignidade, onde quase sempre desejam estar.
Acompanho diariamente este fenómeno. Vejo filhos que querem ser apenas filhos e não cuidadores, pessoas idosas que recuperam a confiança porque voltam a sentir-se seguras no seu próprio lar e vejo que um apoio prestado na altura certa evita, muitas vezes, situações de maior fragilidade mais tarde.
O envelhecimento exige, assim, uma mudança de paradigma. É necessário deixar de encarar os cuidados como uma resposta à emergência e passar a integrá-los no planeamento da vida, como acontece com a educação, a habitação ou a reforma. Cuidar é também criar as condições para que cada pessoa possa preservar a sua autonomia, segurança e o seu direito de continuar a viver com significado.
Envelhecer com dignidade não é uma responsabilidade exclusiva das famílias ou do setor da saúde. É igualmente uma decisão económica, social e política que determinará a sustentabilidade do país nas próximas décadas. Investir em cuidados atempados, autonomia e na permanência em casa traduz-se na redução de fragilidades, em apoiar quem cuida e na preservação da qualidade de vida de uma população cada vez mais envelhecida.
Devemos parar de olhar para o envelhecimento como uma crise e enfrentá-lo como um desafio estratégico de Portugal. As sociedades mais fortes serão aquelas que tiveram a coragem de planeá-lo antes de serem obrigadas a reagir.
Fonte: executivedigest.sapo.pt
