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Envelhecer em casa não deve ser um privilégio, defende Afonso Madeira (Puro Cuidado)

Portugal está a envelhecer rapidamente, mas a resposta a estes apoios está ainda fragmentada e demasiado dependente das famílias. Afonso Madeira, Diretor-Geral da Puro Cuidado, defende que os cuidados domiciliários devem integrar o sistema de saúde e de proteção social e não ficar reservados a quem pode pagar.

Envelhecer em casa, junto das rotinas, memórias e afetos, deve ser uma possibilidade real para todos. Contudo, sem respostas profissionais, coordenadas e acessíveis, poderá tornar-se um privilégio, especialmente num país cada vez mais envelhecido.

É disso que falamos nesta entrevista com Afonso Madeira, Diretor-Geral da Puro Cuidado, empresa no setor dos cuidados domiciliários. Exploramos por que razão o envelhecimento da população obriga Portugal a repensar o modelo tradicional de cuidados, da articulação com o SNS à profissionalização do setor, passando pela tecnologia e pela valorização dos cuidadores. Uma coisa é certa: o futuro do envelhecimento quer-se mais preventivo e humano.

Envelhecer em casa vai tornar-se um privilégio ou um direito?

Envelhecer em casa deve ser uma possibilidade real para todos e não um privilégio reservado a quem tem capacidade financeira ou uma estrutura familiar disponível. A casa representa muito mais do que um espaço físico, pois é onde estão as rotinas, as memórias, os afetos e uma parte essencial da identidade de cada pessoa. Permanecer nesse ambiente, sempre que existam condições clínicas e de segurança, pode contribuir decisivamente para preservar a autonomia, a estabilidade emocional e a qualidade de vida.

Transformar essa possibilidade num verdadeiro direito exige, porém, uma resposta organizada. Não basta desejar que as pessoas permaneçam em casa. É necessário criar condições para que o façam com segurança, acompanhamento profissional e dignidade, independentemente da sua situação económica.

Portugal está a envelhecer rapidamente. Esta realidade deve obrigar-nos a repensar o modelo tradicional de cuidados de saúde?

Sem dúvida. O envelhecimento da população não pode ser encarado apenas como um problema demográfico ou hospitalar. É uma transformação estrutural da sociedade, que exige uma nova forma de pensar a saúde, a dependência e o cuidado. Durante demasiado tempo, o sistema foi organizado sobretudo para responder à doença aguda: a pessoa sente-se mal, dirige-se ao hospital, é tratada e regressa a casa. Mas uma população envelhecida apresenta frequentemente doenças crónicas, diferentes níveis de dependência e necessidades continuadas, que não se resolvem apenas através de episódios hospitalares.

Precisamos de um modelo mais preventivo, integrado e próximo, capaz de acompanhar cada pessoa ao longo do tempo e no contexto em que vive.

“O domicílio terá inevitavelmente um papel central nessa mudança. Não para substituir hospitais, unidades de cuidados continuados ou estruturas residenciais, mas para garantir que cada pessoa receba os cuidados certos, no lugar mais adequado e no momento em que realmente necessita deles.”

Estamos preparados, enquanto país, para responder ao aumento da população idosa e dependente?

Ainda não estamos tão preparados quanto precisamos de estar. Portugal dispõe de bons profissionais e de várias respostas com qualidade, mas continua a existir fragmentação, desigualdade no acesso e uma forte dependência das famílias, que muitas vezes assumem responsabilidades para as quais não têm preparação, disponibilidade ou recursos.

É também frequente a procura de apoio acontecer apenas num momento de crise, por exemplo depois de uma queda, um internamento, uma alta hospitalar ou quando o cuidador familiar chega ao limite. Precisamos de antecipar essas situações, avaliar necessidades mais cedo e construir respostas progressivas que possam evoluir à medida que o grau de autonomia se altera. Não basta aumentar o número de camas ou criar mais instituições para resolver este desafio. Devemos igualmente reforçar os cuidados no domicílio, apoiar os cuidadores informais, investir nos profissionais e melhorar a coordenação entre a saúde e a proteção social.

Que papel podem ter os cuidados domiciliários na redução da pressão sobre hospitais, urgências e unidades de cuidados continuados?

Os cuidados domiciliários podem ter um papel muito relevante, sobretudo na prevenção de situações evitáveis e na continuidade dos cuidados após uma alta hospitalar. Um acompanhamento regular permite identificar precocemente alterações do estado de saúde, promover a correta adesão à medicação, reduzir riscos de queda, acompanhar doenças crónicas e garantir que a recuperação decorre com uma maior segurança.

Também podem facilitar altas hospitalares mais céleres, quando clinicamente adequadas, porque a pessoa deixa de depender exclusivamente da disponibilidade da família para regressar a casa. Com uma equipa preparada, um plano de cuidados e a necessária supervisão clínica, muitas recuperações podem acontecer no domicílio com segurança e maior conforto.

Não obstante, não devemos transferir a responsabilidade para as famílias. Pelo contrário, devemos apostar numa resposta profissional em casa, que dê continuidade ao trabalho realizado no hospital e evite que situações controláveis acabem novamente numa urgência.

Que tipo de articulação deveria existir entre SNS, Segurança Social, autarquias e operadores privados?

Deveria existir uma articulação muito mais próxima, simples e centrada na pessoa. Atualmente, as famílias são frequentemente obrigadas a navegar por diferentes entidades, critérios e processos num momento em que já se encontram emocionalmente fragilizadas. O sistema deveria assumir a responsabilidade de orientar, e não deixar essa coordenação inteiramente do lado de quem precisa de ajuda. O SNS deve assegurar a avaliação e o acompanhamento clínico; a Segurança Social, a componente de proteção e apoio à dependência; as autarquias, pela sua proximidade, podem identificar necessidades e mobilizar recursos locais; e os operadores privados podem acrescentar capacidade, especialização, rapidez e inovação. Esta complementaridade exige regras claras, a partilha segura de informação e uma referenciação mais eficaz. O importante não é saber qual a entidade que presta cada parte do serviço, mas sim garantir que a pessoa não fica desamparada nos espaços que existem entre elas.

Existe o risco de os cuidados domiciliários se tornarem acessíveis apenas a quem pode pagar?

Esse risco existe e deve ser assumido com seriedade. Se o apoio domiciliário profissional continuar a depender sobretudo da capacidade financeira das famílias, envelhecer em casa com segurança poderá tornar-se um privilégio. Por conseguinte, este contexto poderá criar uma desigualdade particularmente injusta numa fase da vida em que as pessoas estão mais vulneráveis.

A resposta, então, passa por modelos de comparticipação mais abrangentes, benefícios fiscais adequados, uma maior intervenção pública e soluções articuladas com seguradoras, subsistemas de saúde e operadores privados. Deve também reconhecer-se que apoiar uma pessoa em casa pode evitar custos muito superiores resultantes de internamentos prolongados, idas recorrentes à urgência ou institucionalizações prematuras. O apoio domiciliário não deve ser visto somente como uma despesa privada da família, dado que é uma componente essencial do sistema de saúde e de proteção social, e deve ser tratado como tal.

O setor dos cuidados domiciliários ainda é muitas vezes visto como informal ou familiar. O que falta para mudar essa perceção?

Falta distinguir claramente o cuidado informal, indispensável e muitas vezes assegurado pela família, de um serviço profissional de cuidados domiciliários. Cuidar profissionalmente é mais do que fazer companhia ou ajudar nas tarefas quotidianas. Implica avaliação, planeamento, uma seleção rigorosa dos profissionais, formação, supervisão, continuidade, acompanhamento clínico quando necessário e capacidade de resposta perante uma alteração do estado da pessoa.

A perceção mudará apenas quando o setor for mais transparente e conseguir demonstrar, de forma consistente, os seus padrões de qualidade e os resultados obtidos. As famílias devem poder saber quem está a entrar na sua casa, que preparação tem, quem acompanha o serviço e o que acontece se surgir um problema. Enquanto operadores, temos também a responsabilidade de elevar os padrões, profissionalizar a comunicação e explicar melhor o valor do trabalho realizado.

“A confiança e o afeto são essenciais, mas não substituem a competência, a organização e a responsabilidade.”

A regulação atual é suficiente para proteger utentes, famílias e profissionais?

A regulação é indispensável, mas não deve limitar-se à existência de licenças ou ao cumprimento formal de requisitos. É importante garantir que as normas acompanham a crescente complexidade dos cuidados prestados em casa e que existe uma capacidade efetiva de fiscalização. Deverão ser cada vez mais claros os requisitos relativos à qualificação dos profissionais, supervisão, planos de cuidados, continuidade do serviço, proteção de dados, gestão de incidentes e articulação clínica.

Também é fundamental combater a informalidade, que pode colocar em risco a pessoa cuidada, a família e o próprio profissional. Uma regulação exigente protege os utentes e valoriza os operadores que investem verdadeiramente na qualidade. Num setor que entra na intimidade da casa das pessoas, a confiança não pode depender apenas da boa vontade, deve estar sustentada em critérios objetivos, verificáveis e transparentes.

Que desafios existem em escalar um negócio que depende tanto da relação humana e da confiança?

O maior desafio é crescer sem perder aquilo que torna o cuidado verdadeiramente humano. Neste setor, não basta aumentar o número de serviços ou de profissionais. Cada nova pessoa acompanhada representa uma história, uma família, necessidades específicas e uma relação de confiança que tem de ser construída e preservada. A escala exige processos sólidos, tecnologia, formação, supervisão e capacidade de coordenação. Mas esses instrumentos devem libertar tempo para cuidar melhor, e não afastar os profissionais das pessoas.

A tecnologia pode ajudar a acompanhar planos de cuidados, melhorar a comunicação e identificar riscos, mas não pode substituir a presença, a empatia ou o julgamento humano. Crescer com qualidade significa conseguir que os mesmos princípios sejam vividos por toda a organização. O verdadeiro teste está em garantir que cada família continue a sentir que é conhecida, ouvida e acompanhada, não em prestar mais cuidados.

Este é um setor intensivo em pessoas. Como se atrai e retém talento numa área muitas vezes pouco valorizada?

Começa-se por reconhecer que cuidar é uma profissão exigente, especializada e de enorme responsabilidade. Não podemos pedir excelência, disponibilidade emocional e compromisso sem oferecer condições dignas, estabilidade, formação e perspetivas de evolução. A remuneração é naturalmente importante, mas não é o único fator. Os profissionais precisam de sentir que são respeitados, acompanhados e protegidos. Necessitam de supervisão, apoio perante situações difíceis e reconhecimento pelo impacto que têm na vida das pessoas e das suas famílias.

É igualmente necessário construir carreiras no setor. Um cuidador deve conseguir desenvolver competências, assumir novas responsabilidades e visualizar um percurso profissional. Retemos talento quando as pessoas percebem que não estão apenas a ocupar um posto de trabalho e que pertencem a uma organização que valoriza o seu contributo e lhes permite crescer.

Cuidar de idosos ou pessoas dependentes exige competências técnicas, mas também emocionais. Como se forma esse perfil?

A formação técnica é essencial, mas não é suficiente. É possível ensinar procedimentos de higiene, mobilização, alimentação, prevenção de quedas ou acompanhamento da medicação. Mais difícil, e igualmente importante, é preparar alguém para entrar em casa de outra pessoa com respeito, escutar sem infantilizar e apoiar sem retirar autonomia.

Esse perfil começa numa seleção rigorosa, porque existem qualidades humanas que não se desenvolvem apenas numa sala de formação. Depois, precisa de formação contínua, acompanhamento no terreno, supervisão e espaços onde os profissionais possam refletir sobre as situações que vivem. Cuidar implica lidar diariamente com fragilidade, perda, demência, isolamento e, por vezes, com o fim de vida. Para cuidar bem dos outros, os profissionais também precisam ser cuidados pela organização. A qualidade emocional do serviço depende muito da segurança, da preparação e da estabilidade de quem o presta.

Que oportunidades de crescimento vê neste setor nos próximos anos?

O setor terá um crescimento muito significativo, não só devido ao envelhecimento da população, como também porque as pessoas desejam permanecer em casa durante mais tempo e participar nas decisões sobre a forma como são cuidadas. Veremos uma maior integração entre o apoio domiciliário, a enfermagem, a medicina, a fisioterapia, a reabilitação, a saúde mental e a monitorização remota. Haverá também espaço para respostas especializadas em demências, cuidados paliativos, recuperação pós-hospitalar e gestão de doenças crónicas.

Contudo, a principal oportunidade está em construir modelos verdadeiramente integrados, preventivos e personalizados, capazes de acompanhar a evolução das necessidades de cada pessoa. O futuro dos cuidados será mais domiciliário, mais coordenado e apoiado pela tecnologia, mas terá de continuar profundamente humano. É nessa combinação entre competência clínica, proximidade e respeito pela individualidade que se encontrará o verdadeiro valor do setor.


Leonor Wicke, Jornalista e Coordenadora Editorial

28 Julho 2026 08:08
Fonte: sapo.pt

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